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  • Andrea Rangel

A morte nossa de cada dia


Sunset por Bill Mayer

Nunca fui uma pessoa estudiosa, dessas que gostam de se debruçar sobre temas objetivos, desenvolvidos através de dados estatísticos e pesquisa bibliográfica. Gasto o meu dia com planilhas e conversas, na maior parte das vezes burocráticas, que me impelem a buscar, nas horas vagas, um refúgio pouco iluminado, presente na minha mente cansada e faiscante, a um passo de dar defeito depois de oito horas de trabalho. Optei por escrever sobre a morte, mas prometo não discorrer sobre as diferentes representações do luto entre povos aborígenes ou mesmo o suicídio como um fato social. Quero falar sobre a morte imaterial que desencadeia uma virada de página ou mesmo a sensação de que seríamos tão livres e desimportantes quanto universais, para não dizer eternos.


Em Patrimônio, Philip Roth desvela com seu olhar impiedoso a relação entre pai e filho, ou melhor dizendo, a relação marcada pela singularidade de dois indivíduos ligados pelo vínculo genético. Engana-se quem acha que vai encontrar uma história sobre paternidade como a retratada por filmes como ‘A Vida é Bela’ ou mesmo ‘Ladrões de Bicicleta’, em que o roteirista pesa a mão na cumplicidade para arrancar lágrimas do espectador. A obra é marcada pela transitoriedade de papéis em que só o vínculo é perene, já que as atuações são condicionadas pelo ambiente externo, marcado por diagnósticos negativos atenuados pela promessa de novos tratamentos. O pai de Roth desempenha também o papel de filho, que vez por outra se tornaria um inimigo implacável, mas que representa também o mais valioso patrimônio do narrador, com sua bagagem de luta e severidade. Sabemos desde o início que esse mesmo pai estaria com os dias contados, porém ninguém esperaria que o protagonista fosse tocado pela epifania da finitude.


Um homem condenado à morte é sempre um mote interessante para escritores que concorrem a prêmios. Só que existe a morte como um desfecho – comumente narrada por

autores ordinários - e também o desfecho que nos conduz a uma espiral de perdas e ganhos.


Li ‘O Homem Comum’ (Everymen), também escrito pelo Roth, há coisa de dez anos. De início, já somos alertados de que, com exceção da própria morte do protagonista, nenhum evento extraordinário será narrado pelo autor. O personagem central é um publicitário bem-sucedido, às voltas com casamentos desfeitos e filhos que teriam se afastado por causa de sua vida dedicada à luxúria. A decadência física, porém, viria acompanhada de uma nova versão dos fatos, que se chocaria com uma vida pródiga e cartesiana, representada por um passado em que escolheria os predicados para os sujeitos que o cercavam. É quando então o afastamento dos filhos passaria a ser atribuído à incomunicabilidade cotidiana, e os casamentos desfeitos seriam fruto de sua aversão ao processo de envelhecimento.


‘Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas’, profetizou Iohanna, o patriarca da família árabe retratada no livro ‘Lavoura Arcaica’. O ‘Homem Comum’, na corrida pelo tempo perdido, estaria buscando a verdade por trás de suas malfadadas relações. O mesmo vale para o personagem de Roth, que diante da morte premente do pai, passa a reconhecer o patrimônio que constitui a sua própria grandeza. Na literatura, a vida inunda a morte, restando ao leitor apenas a beleza. Quisera eu que a vida imitasse a arte, e que toda a morte fosse narrada por um escritor como o Philip Roth, se bem que sempre nos caberá o direito intransferível de virar a página e de morrer para viver de novo dia após dia.

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