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  • Paulo T. Vasconcellos

A Lua

Faz noite. O guerreiro derrotado finalmente consegue sair do campo de batalha, cansado, ferido, faminto, sedento, endurecido e sujo. Ele passou dias em batalha. E perdeu. Suas pernas estão afundadas até os joelhos na lama de terra, sangue e excrementos que vazaram do intestino dos mortos. A estrada à sua frente é cercada de perigos por todos os lados. Tropas inimigas caçam sobreviventes. Tropas amigas caçam desertores. Camponeses denunciam fugitivos para se defender ou para cair nas graças do rei opositor. Inimigos são inimigos. Amigos podem ser inimigos. A Lua ilumina o caminho à sua frente, mas ele vê apenas a continuação da guerra e da derrota.


Faz noite. O Lagostim finalmente conseguiu sair do brejo, frágil e despreparado para os perigos adiante. À frente a estrada é ladeada por um lobo e um cão. À frente, duas cidades se colocam como opção. Uma Lua com face humana ilumina o caminho.


Tradicionalmente o Arcano do Tarot A Lua é considerado um mal presságio. Ilusões, enganos, inimigos ocultos, loucura e insanidade. Mas como conciliar os maus presságios com a Senhora da Noite e dos Sonhos? Como a Senhora da Maternidade e de tudo o que cresce e decresce pode ser símbolo de ilusão? A resposta é que o arcano A Lua esconde exatamente a Lua.


O Lagostim (ou o guerreiro da imagem anterior) está diante de uma estrada. À frente dele estão perigos reais ou percebidos e a salvação real ou percebida. Ele precisará tomar duas atitudes para sair do brejo sujo em que se encontra: andar e escolher.


Porém, como o lagostim pode escolher algo diferente do brejo, se o brejo é tudo o que ele conhece? Como o guerreiro pode escolher algo diferente da batalha, se a batalha é tudo o que ele conhece? Pior: como um guerreiro derrotado pode escolher algo diferente da derrota, se a derrota é tudo o que a vida dele conhece?


O brejo ensinou o lagostim a viver no brejo. A batalha ensinou o guerreiro a viver em batalha. A derrota ensina a viver na derrota. A dor ensina a viver na dor. A regra da lógica é que o passado empurra para o futuro. É a inércia fria da causalidade material. Fazendo as mesmas coisas, se apegando aos mesmos sentimentos e se guiando pela mesma razão os resultados serão os mesmos. Insanidade é continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.


Essa é a face humana que esconde A Lua no Arcano: a projeção da própria história, vida e identidade no mundo. O lagostim que procura novos brejos, o guerreiro que procura novas guerras, o derrotado que procura novas derrotas, o abusado que procura novos abusadores, o rejeitado que procura novas rejeições, e o oposto igualmente: o tirano procura tiranizados, o abusador procura abusáveis e o cruel procura vítimas.

A face humana da lua é fruto de uma alucinação, pois alucinação é a percepção externa de um estímulo interno. O mundo é também praias, campos, montanhas e vales, mas o lagostim enxerga apenas o brejo, que é tudo o que ele viveu. O mundo também é taverna, banquete, jantar, festa e companheirismo, mas o guerreiro vê apenas a guerra, pois é aquilo que ele viveu.


Em linguagem humana, podemos falar de traumas: a crença de que uma situação nociva e danosa ocorrida antes vai se repetir da mesma forma. Podemos falar em ideologias ou conjuntos de crenças disfuncionais e limitantes a respeito de si e do mundo que se baseiam no passado para projetar o futuro. “Se falhou antes, falhará de novo”. É a tirania da causalidade grosseira.


Aquele que quer vencer a inércia da causalidade grosseira deve aprender a morrer. Pois deixar morrer o guerreiro (que sim, cumpriu sua função, mas deve ser deixado descansar em paz) é o que permitirá enxergar um mundo em paz. A partir do instante em que brota, a semente morre e caminha em direção à árvore. A própria história é um fardo pesado demais para quem quer caminhar rápido e viajar leve.


O oposto de Alucinação não é Certeza, mas Esperança. Porque o passado, bom ou ruim, não é promessa de futuro, mas ponto de partida relevante, mas não definitivo. Porque para descobrir onde se quer chegar, às vezes, é preciso sair de onde se está.

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