• Eduardo Regis

A Dança Serpentina do Vudu


Eu olho para dentro de mim mesmo procurando a verdade e o que vejo é a abóbada celeste desenhada de pontos cintilantes e de constelações. Eu sigo as estrelas com meu dedo e rabisco desenhos prateados nesse céu meu. Elas guardam segredos muitos, mas não de mim. Eu as conheço. Eu sei a forma de cada desenho antes mesmo de termina-lo.


Este céu de dia e de noite é um entrelace hipnótico dos corpos sinuosos de Damballah e de Ayida. Vejo a dança das serpentes. Sinto sua perspicácia sutil e as fronteiras que se expandem e se contraem a cada novo movimento. É a própria respiração viva do universo. As estrelas, planetas e nebulosas, todas são escamas nos corpos infindáveis dessas serpentes.


E o que são os anjos? Eu pergunto ao céu neste eterno crepúsculo. As penas são escamas, você sabe disso. Escamas diferentes. Os anjos são serpentes que ganharam asas, mas não perderam sua astúcia. Os anjos que me cercam e me protegem e me preenchem, todos são rebentos do ir e vir dos corpos escamosos das serpentes amantes.


Nós temos uma história para você”.


A história das histórias. O livro sagrado das coisas e das minhas coisas. Este livro velho como o mundo e velho como minha alma. Eu o lerei. Ganhei os olhos que precisava. A visão que me faltava. Ela me foi dada por um anjo e por um bispo. No chocalho incessante do percorrer da existência eu recebi estes olhos e soube então o que era preciso fazer. Olho para o céu.


Vejo o sol e vejo a lua, irmãos e comparsas. Eles brilham alto no céu de serpentes, luminares magníficos do caminho sinuoso. Será manhã? Será noite? Quem sabe? Aqui, no tempo além do tempo, onde o mito é carne viva e sangue pulsante, ninguém sabe. Ninguém se importa.


O sibilo das serpentes que entoam uma canção antiga sobre o tempo que dá voltas por dentro de si mesmo. O tempo não alcança o sol majestoso e a lua garbosa e não há de ser o tempo que vai me fazer ver melhor, pois os olhos que ganhei são olhos que não o respeitam. Caso o tempo soubesse que ele nada significa talvez estivesse mais tímido nessas eras de correria. Sinta o bafo das serpentes. Sinta o som dos corações reptilianos. É o mundo que nos serve e não nós que servimos ao mundo, se soubermos quem somos e como sermos nós mesmos.


Esta é a casa verdadeira e legítima das pessoas. Esta é a habitação celestial e infernal que não foi erguida por mão nenhuma. Eu a contemplo com meus olhos novos. Eu a admiro e a amo e entre um inspirar e expirar qualquer eu entendo que as serpentes me convidam para ficar.


“Fique. Nós ainda queremos lhe falar”.


Eu então me sento no chão de pedras e grama verde, debaixo de uma árvore cujas raízes ígneas me aquecem. Eu me encosto em seu tronco anoso. Sua copa descomunal se espalha e se mistura ao céu e as serpentes fazem casa nela e de lá me lançam frutos que eu preciso devorar.


Esses olhos novos que ganhei. Que maravilhas eles me revelam. Esses olhos que me foram dados por um anjo que também é um bispo e cujas asas são escamas. Este anjo é uma serpente e suas inspirações são como veneno que mata o homem. O homem está morto. Com os olhos novos eu vejo isso. O homem está morto e nessa morte, ele está faminto. Atirem mais maçãs dessa árvore do conhecimento e eu plantarei com suas sementes minha árvore da vida. Eu e as serpentes na dança eterna da existência. Serei um anjo também. Uma serpente de asas virarei e meu veneno destilarei em taças que servirei às pessoas e elas ficarão ou loucas ou sábias se ousarem beber.

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