• Nick de Mattos Frisvold

A Bíblia e o Aborto.


Divulgação/CDD

Todos nós vimos e ouvimos os ativistas pró-vida com a Bíblia na mão, condenando a interrupção da gravidez sob a bandeira do assassinato. Eles são tão barulhentos e tão virulentos que isso por si só já deveria ser o suficiente para duvidar da mensagem, pois todo este barulho e virulência é, de uma perspectiva psicológica, algo que acontece quando o argumento está desmoronando. Então, vou declarar isto logo no começo deste artigo: a Bíblia não diz absolutamente nada sobre o aborto intencional. Há menções sobre a interrupção violenta e acidental, mas antes de chegarmos aí, vamos falar sobre o argumento usado para tornar o aborto um pecado - de que isso seja um assassinato e de que o ser começa na concepção. Isso é, simplesmente, falso. Se olharmos para a Torá, um feto não é considerado um ser até que dê seu primeiro suspiro e receba alma (nefesh) através do sopro divino. Até então, o feto faz parte da mãe e é propriedade da mãe. E, na verdade, quando olhamos para a Torá - e o Antigo Testamento em geral - todos os casos que falam sobre aborto em questões legais fazem-no em virtude de as mulheres serem ali representadas como propriedade do homem.


A mulher como propriedade do homem está embutida em Gênesis 3:16, onde Deus diz a Eva que: "... e teu desejo será para teu marido, e ele te dominará". Esse papel desequilibrado entre Adão e Eva é uma substituição do plano original, onde Deus criou o homem à sua imagem, como Gênesis 1: 27 declara: "à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Juntos, eles governariam os animais da natureza. Desde que somente mais tarde encontramos a história de como Eva foi criada do lado de Adão (em Gênesis 2:23), estamos aqui falando do primeiro casal, Adão e Lilith, que foram formados à imagem de Deus. Lilith certamente não estava interessada em se submeter ao seu igual e foi a primeira mulher a se divorciar de seu marido, algo que mais tarde foi proibido na fé abraâmica como Deuteronômio 24:1 comunica:

"Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então será que, se não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente, far-lhe-á uma carta de repúdio, e lha dará na sua mão, e a despedirá da sua casa."

As mulheres não tinham esse direito. Era o pai que arranjava seu casamento, o dote e o contrato, que era basicamente como se desfazer de qualquer outra forma de propriedade, e como Êxodo 20 e 21 detalham, é evidente que as mulheres eram, a princípio, a propriedade do pai e depois, quando se casavam, o pai transferia a propriedade para o marido. Até os Dez Mandamentos são bem claros em como as mulheres são propriedades. Onde Êxodo 20:17 fala da inveja, evidencia-se o pecado ao cobiçar a mulher do próximo, da mesma forma que os animais da fazenda dele:

"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo."


Números:30 discute várias questões relativas a juramento, palavra, contrato e coisas do gênero e afirma claramente que a palavra de uma mulher não tem valor real, pois seu pai poderia anular qualquer promessa que ela fizesse antes de estar casada e depois disso, seu marido. Isso significa que, de uma perspectiva bíblica, uma mulher, solteira ou casada, como propriedade, jamais poderia sequer assinar um contrato. Mulheres livres, viúvas e donzelas solteiras que viviam sozinhas eram tratadas de maneira diferente, mas aqui estamos falando de uma categoria de 'alteridade' na fé abraâmica, as exceções.


Portanto, deixemos claro: o Antigo Testamento considerava a mulher como propriedade, e alguns dos homens bíblicos famosos tratavam as mulheres melhor do que outros, como o amor de Abraão por Sara (e o dela por ele) muito mais pelo caráter do que pelo código divino. E sobre Abraão, ele estava disposto a assassinar seu único filho, porque Deus teria dito que assim o fizesse - o que era um teste bastante macabro de fé, se você parar para pensar. Essa mesma história, muitas vezes usada como exemplo da beleza da fé, também revela que o Javé do Antigo Testamento tinha um lado cruel, se não psicótico, em sua fúria assassina. Com certeza esta parte da Bíblia não está falando de um Deus que mantém a vida humana em particular consideração. O argumento usado pelos ativistas pró-vida é o de como a Bíblia fala sobre a santidade da vida; e isso então é interpretado para proibir o aborto. Os versículos mais amados para citação se encontram em Salmos 139:13-16, que diz o seguinte:


"Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe.

Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra.

Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia."


E é claro que essa leitura seletiva ignora os versículos à frente, onde Davi canta nos versos seguintes, de 19 a 22:


"Ó Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue.

Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão.

Não odeio eu, ó Senhor, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti?

Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. Certamente matarás os ímpios, ó Deus ... Eu os odeio com ódio perfeito: conto-lhes meus inimigos."


Davi certamente canta sobre a maravilha da criação e da gestação, mas isso não passa de uma consideração muito seletiva pela vida não-nascida, enquanto se pede a Deus que mate todos os seus inimigos. Isso significa que a vida de uns não importava tanto quanto a de outros.


O rei Davi, que escreveu este Salmo, era de uma linhagem particularmente eleita e, em seus aspectos poéticos, o verso frequentemente citado em defesa da vida não-nascida é mais sobre a predestinação do rei Davi, um homem ao qual Deus teria planos. O mesmo acontece com o profeta Jeremias em seu livro, capítulo 1, versículo 5:


"Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta."


Temos a frase referente a João Batista em Lucas 1:41-44:

"E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo.

E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.

E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor?

Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre."


E finalmente, o próprio Jesus nas palavras de Paulo, em Efésios, 1:3-5


"Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;

E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,..."


Precisamos entender que esses versículos falam sobre seres únicos, profetas. A gestação desses indivíduos notáveis foi sujeita a um processo mágico descrito vagamente na Cabala Prática, no livro Moonchild de Crowley, e no Babalon Workings de Parson. Em resumo, trata-se de uma maneira de convidar a interferência divina e angelical no ato da concepção por todas as formas de considerações mágicas, ritualísticas e astrológicas. Portanto, não estamos falando de filhos em sentido geral, mas de indivíduos muito únicos. Não estamos falando dos auto-proclamados profetas que se alastram nestes tempos de obscurantismo.


Além disso, temos que entender que os Salmos eram músicas e poesias e devemos permitir alguma medida de licença artística e criativa à composição do salmista, como deveríamos fazer no caso de qualquer trovador, poeta ou compositor. Eles não eram necessariamente historiadores ou teólogos, mas artistas.

A Torá é clara sobre a questão de quando a alma entra na matéria orgânica e biológica, que é quando o recém-nascido respira pela primeira vez. Até esse ponto, é uma fusão de células como qualquer outra forma de vida. A característica humana é gravada nessa massa biológica quando a alma entra nela, quando o sopro é inalado, como Gênesis 2:7 declara: "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente."

Foi só quando o homem recebeu o sopro que ele se tornou uma alma viva - e aqui estamos falando de um ser humano totalmente formado - e até que o sopro fosse dado, essa matéria orgânica não possuía 'uma alma'. Mas mesmo assim, o Javé do deserto não se importava nem com matéria biológica, nem com alma, vez que existem inúmeras histórias em Reis e Crônicas que demostram como o povo de Javé tinha o direito divino ilimitado de assassinar e massacrar aqueles que eles considerassem maus ou que vivessem do outro lado da cerquinha, mas deixemos isso de lado para nos concentrarmos no aborto e na santidade da vida do nascituro e do recém-nascido.

Podemos trazer duas situações que são características de toda a atitude em relação ao aborto no Antigo Testamento. O primeiro está em Êxodo 21:22-23:

"Se alguns homens pelejarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e julgarem os juízes.

Mas se houver morte, então darás vida por vida"

Essa citação é bem clara: perder o filho NÃO é um infortúnio grave, e o pagamento é dado ao marido como o dono da mulher. Esta era a posição do Antigo Testamento sobre aborto. Como declarado anteriormente, a Bíblia não fala diretamente sobre o aborto como um ato deliberado, uma escolha, e o mais próximo que chegamos disso é o que descobrimos sobre a suposta infidelidade de uma mulher. Em outras palavras, era uma questão de ciúmes e de quem era o pai da criança, como vemos em Números 5:19-24:

"Então o sacerdote fará a mulher jurar e lhe dirá: Se nenhum outro homem se deitou com você e se você não foi infiel nem se tornou impura enquanto casada, que esta água amarga que traz maldição não lhe faça mal.

Mas, se você foi infiel enquanto casada e se contaminou por ter se deitado com um homem que não é seu marido —

então o sacerdote fará a mulher pronunciar este juramento com maldição — que o Senhor faça de você objeto de maldição e de desprezo no meio do povo fazendo que a sua barriga inche e que você jamais tenha filhos.

Que esta água que traz maldição entre em seu corpo, inche a sua barriga e a impeça de ter filhos. "Então a mulher dirá: ‘Amém. Assim seja’.

"O sacerdote escreverá essas maldições num documento e depois as lavará na água amarga.

Ele a fará beber a água amarga que traz maldição, e essa água entrará nela, causando-lhe amargo sofrimento."

O que esta seção nos diz é que havia claramente um conhecimento sobre remédios abortivos - e também que eles poderiam ser usados em medidas punitivas de uma maneira que só pudesse apontar para a importância da propriedade e não para a santidade da vida. E só para esfregar na cara um pouco o desdém que o Jeová do Antigo Testamento mantinha pela vida não-nascida, encontramos em Oséias 9:14: "Dá-lhes, ó Senhor; mas que lhes darás? Dá-lhes uma madre que aborte e seios secos." Também em Oséias 13:16, podemos ler o que Deus traria aos infiéis "seus filhos serão despedaçados, e as suas grávidas serão fendidas pelo meio.

Em 2 Reis 8:12, a profecia de Eliseu afirma que o rei Hazael "...porás fogo às suas fortalezas, e os seus jovens matarás à espada, e os seus meninos despedaçarás, e as suas mulheres grávidas fenderás. No capítulo 15 de 2 Reis, versículo 16, o rei Menaém é especificamente instruído por Jeová para abrir a barriga das mulheres grávidas. Em Isaías 13:16, podemos ler sobre a queda de Babilônia, que os justos que garantirão a queda "E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas". Vamos parar por aí. Usar a Bíblia para advogar a favor da vida ou da morte não faz sentido. É uma leitura altamente pessoal e extremamente seletiva das escrituras. A Bíblia, quando fala da vida não-nascida, o faz em termos de descendência, legado e propriedade, não sobre a santidade da vida, simplesmente porque a teologia e a lei religiosa do Antigo Testamento não consideravam um feto por nascer como um ser humano.

O direito de optar pelo encerramento da gravidez é uma das mais importantes batalhas para as mulheres modernas. É na conquista desse direito que a mulher se verá verdadeiramente livre, já que isso romperá as amarras silenciosas que a tornam propriedade do pai, do marido, da igreja e do Estado. É claro que nas crianças vemos o nosso futuro, mas não podemos perder de vista as 5,5 milhões de crianças cujos pais que nunca as assumiram [1], mas que provavelmente estão apoiando as fileiras mais odientas da cristandade brasileira. Não se trata da obrigatoriedade do aborto, mas tão somente da legalidade de optar por fazê-lo, e por uma infinidade de razões que não estão cobertas pela Bíblia. Reduzir o potencial e propósito humano, bem como as suas liberdade e individualidade sob a bandeira da "família" é somente uma perpetuação da dominação e tirania sobre a mulher, e sobre você, homem. E se essa é a intenção, é necessário que as mulheres cristãs estejam avisadas dessa agenda maldita: para que não mais assumam contratos, que não se eduquem, que não sejam mais do que uma forma de animal domesticado como manda a Bíblia. Garanto que se essa mensagem ficar bem clara, poucas serão aquelas que se manterão fiéis às mesmas escrituras que os homens.

Talvez devamos questionar mais. Será mesmo que aquele deus do deserto, o deus de Abraão, realmente lhe dá o direito de dominar alguém, especialmente se você não é capaz de dominar a si mesmo? Não teria sido este o espírito arcôntico de fogo que Jesus veio para derrubar, trazendo a nova lei, que é a do amor? Faz sentido que uma força criativa, o autor de todas as maravilhas cósmicas, se intrometa com o que fazemos com nossa vida pessoal e sexual? Tudo é apontado como metafórico ou literal, de acordo com a conveniência, com os interesses dos "pastores dos rebanhos", os auto-proclamados líderes e profetas que ferrenhamente defendem a lei do cabresto. A religião é uma coisa assustadora, porque os homens da religião não precisam mais pensar: a lei moral e divina são suas muletas, pensar é difícil e é melhor que os outros o façam por você. Será? Tome um tempo para pensar sobre isso e você verá o quanto isso soa absurdo.

A Bíblia não diz nada sobre o aborto, absolutamente nada. Mas ao negar o aborto, a mulher ainda pode ser mantida acorrentada e sua liberdade e independência, restritas. Desta forma ela ainda pode ser propriedade de alguém. Que um Estado secular ainda esteja se incomodando com o direito de abortar é mais do que ridículo, é irresponsável. Se você realmente entendeu alguma coisa sobre a Bíblia, deveria se lembrar mais do seu personagem principal. Aquele mesmo, que disse que a lei está escrita em nossos corações. E a lei é o Amor.

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[1] No Brasil somente. Eu poderia listar ainda as várias razões. Trouxe apenas uma para não fugir do escopo deste artigo.

[2] Nota da tradução: O autor usou originalmente a versão King James, mas para fins de comparação, a tradução usou a versão Almeida Revista e Corrigida.

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